Sistemática dos Seres Vivos






Introdução:


Das bactérias às leveduras, aos fetos, às flores, às aves, ao próprio Homem, todas as formas de vida exibem a sua diversidade. A beleza e ‘sedução’ dessas formas, cores e estruturas têm sido o chamariz para o conhecimento do mundo em que vivemos. E quanto mais estudamos e conhecemos, mais necessidade sentimos de continuar a procurar e a desvendar os mistérios da Natureza.


A realização deste trabalho de investigação pretende auxiliar os alunos na construção e consolidação da sua aprendizagem e dos seus conhecimentos a nível da disciplina de Biologia.


Este trabalho baseia-se, essencialmente, na Sistemática e na classificação e divisão dos seres vivos em reinos, que implica a investigação de outras ciências, como a taxonomia, e que por sua vez, implica a definição de critérios de distinção a nível mundial, entre a comunidade científica.


1. Identificar a sistemática como a ciência da classificação e um ciência em evolução


Sistemática é a ciência responsável pela classificação dos seres vivos, uma vez que esta estuda as relações entre os organismos, os espécimes e a sua preservação e analisa todos os dados recolhidos noutras áreas da pesquisa biológica. Estas características da sistemática permitem-lhe um maior conhecimento e domínio para a classificação dos seres vivos.


A sistemática é também uma ciência em evolução. O primeiro sistema de classificação foi de Aristóteles no IV a.C. , seguindo-se Lineu em 1758. Actualmente a sistemática usa como base a hierarquia de Lineu, podendo esta vir a ser alterada futuramente, visto que o ser humano ainda desconhece muitos seres que existem no nosso planeta, nomeadamente, nas profundezas dos oceanos. Além disso, como a sistemática estuda o modo como os seres vivos se relacionam evolutivamente então nunca poderá estacar numa só classificação, esta irá sofrer, ao longo do tempo, constantes alterações.


2. Distinguir sistemática, taxonomia e nomenclatura


Sistemática é a ciência que procura classificar os diversos seres vivos e relacioná-los evolutivamente, expressando-se em sistemas taxonómicos. Para isso, reúne conhecimentos e dados de outras áreas. A taxonomia, por sua vez, trata da ordenação e denominação dos seres vivos, agrupando-os de acordo com o seu grau de semelhança. A taxonomia pretende separar os organismos por espécies, descrevendo as características que distinguem uma espécie da outra e ordenando as espécies por categorias taxonómicas. Por fim, a nomenclatura tem a função de designar cientificamente os grupos taxonómicos, de acordo com certas regras universalmente estabelecidas.


3. Relacionar a evolução das classificações biológicas com a evolução do conhecimento científico


O ramo da ciência que se responsabiliza pela classificação dos seres vivos – sistemática, teve início no século IV a.C. por Aristóteles, que ordenou os animais consoante o seu modo de reprodução e o seu tipo de sangue: vermelho ou não vermelho. A partir dos séculos XVII e XVIII os botânicos e zoólogos começaram a esboçar um sistema de categorias de classificação. Em 1758, Lineu fez o primeiro trabalho extensivo de categorização, que ainda serve de base actualmente.


Como já foi referido, a ciência sistemática é caracterizada por aglomerar conhecimentos de varias áreas ligadas à biologia. Quando foi criado o primeiro sistema de classificação, por Aristóteles, as ferramentas utilizadas para a classificação dos seres vivos eram muito rudimentares, a ciência ainda não estava em desenvolvimento. Foi a partir do século XVII que começou o grande avanço na área da ciência com Galileu e Descartes. Em 1758 já se notava significativamente o progresso obtido na ciência, através do vasto trabalho de categorização de Lineu. Neste momento as ferramentas utilizadas são muito mais avançadas e tendem a evoluir cada vez mais. Dada a constante evolução das tecnologias e o progresso a nível do conhecimento científico, a sistemática também evoluiu, uma vez que esta reúne conhecimentos de áreas a si ligadas. Actualmente tem-se recorrido à biologia molecular que permite comparar os diferentes códigos genéticos, e futuramente, com certeza, serão utilizados outros métodos para o desenvolvimento da ciência sistemática.





Fig.1 – Sistema de classificação dos seres vivos, em cinco reinos.


4. Identificar diferentes sistemas de classificação, os seus critérios, vantagens e limitações

Lusíadas- Canto IX Ilha dos Amores


1. Inserção do texto na estrutura interna e externa da obra

Este episódio denominado Ilha dos amores localiza-se no canto IX dos dez que constituem Os Lusíadas de Luís Vaz de Camões.
Os Lusíadas dividem-se em quatro partes: a preposição, a invocação, a dedicatória e a narração onde se situa este episódio.
Para além destas quatro partes, a obra ainda se encontra dividida em quatro planos: a viagem de Vasco da Gama, a história de Portugal, o maravilhoso e as intervenções do poeta, sendo que este episódio se localiza no plano do maravilhoso.

2. Assunto do excerto

O episódio da ilha dos amores expõe a vontade da deusa Vénus em premiar o seu tão amado povo lusitano com a oferta da paragem numa ilha paradisíaca, “fresca e bela”, encantada pela beleza da Natureza das “fontes límpidas”, da “verdura” e das “Mil árvores” que “estão ao céu subindo”. Nessa ilha maravilhosa, os portugueses foram cortejados e namorados pelas sedutoras ninfas, que obedecendo às ordens de Vénus ofereceram uma certa resistência de modo a que “se fizessem primeiro desejadas”.
Com o intuito de realçar a beleza da Ilha, Camões transmite uma gradação ascendente da vista sobre a mesma, iniciando com uma visão geral “Houveram vista da Ilha namorada” e transmitindo cada vez mais a sua aproximação “De longe a ilha viram”, acabando pelo aspeto completo desta, centrando a sua fauna e flora: “Três fermosos outeiros se mostravam”, “A cidreira com os pesos amarelos”.

3. Cinco recursos estilísticos e valor expressivo

É possível encontrar cinco recursos estilístico em vários versos da Ilha dos amores sendo eles: a metáfora, “A laranjeira tem no fruto lindo /A cor que tinha Dafne nos cabelos”, o poeta pretende fazer a comparação da cor da laranjeira com a cor dos cabelos de Dafne, transmitindo assim a possibilidade de estes serem ruivos; hipérbole: “Três formosos outeiros se mostravam / Erguidos com soberba graciosa”.; adjetivação: “De longe a Ilha viram fresca e bela”, “Com pomos odoríferos e belos”, e ainda, a sinestesia: “Claras fontes límpidas manavam”, “Com pomos odoríferos e belos”, “Alguas, doces cítaras tocavam / Alguas, harpas e sonoras frautas”, todos estes recursos servem para a enaltecer a beleza e encanto da ilha.
Por último temos uma gradação ascendente da visão sobre a ilha: “Houveram vista da Ilha namorada”, “De longe a ilha viram”, “Três fermosos outeiros se mostravam”.

4. Tempos verbais predominantes e respetiva importância

Em consequência da leitura de diversas estrofes do episódio em questão somos capazes de constatar o uso predominante de tempos verbais como o presente, o pretérito-imperfeito e o gerúndio. Estes tempos servem para conferir ao leitor a sensação de que a ação é contínua, ainda está a ocorrer e por consequente a realidade da mesma. Nas expressões: “levava”, “adornavam”, “estão” e “subindo” comprovamos o valor durativo que se pretende conceder à aventura.

5. Aspetos formais significativos

Esta epopeia é constituída por um número variável de estrofes, sendo todas elas oitavas. O esquema rimático é o seguinte: abababcc, cruzada nos seis primeiros versos e emparelhada nos dois últimos. Todos os versos são decassílabos heroicos, acentuados na 6ª e 10ª silabas.

1 2 3 4 5 6 7 8 9 10
Co/res/ de/ quem/ a/ vis/ta/ jul/ga e/ sen/te

Que/ não/ e/ram/ das/ ro/sas/ ou/ das/ flo/res
1 2 3 4 5 6 7 8 9 10

6. Importância do excerto na estrutura da obra

Em relação à importância deste episódio na estrutura da obra, podemos dizer que, Camões teve como objetivo imortalizar os heróis lusitanos que se aventuraram por mares nunca antes navegados. Este é, por isso, um episódio de carácter simbólico, na medida em que representa a recompensa e os prémios entregues e merecidos por todos os que buscaram fama e a glória, em nome da pátria, passando por perigos e sacrifícios para alcançar o seu sonho. Porém este não é o único motivo evidenciado, a partir da análise dos vários versos, podemos concluir que o poeta também possuía a ideia de condenar a cobiça e a tirania.

Cesário Verde


Introdução

José Joaquim Cesário Verde, nascido a 25 de Fevereiro de 1855 em Lisboa, é um poeta Parnasiano de grande importância para a língua Portuguesa. Embora tenha vivido apenas 31 anos, Cesário influenciou a literatura e a poesia em Portugal do século XX (vinte). Poeta do campo que vivia na cidade, era oriundo de uma família ligada a agricultura e ao campo e, talvez por isso, fosse tão apaixonado pela natureza. Trabalhador com seu pai numa loja de ferragens e em negócios de fruticultura, Cesário estudou também na universidade de letras embora a tivesse vindo a abandonar passados alguns meses.
Vítima de uma doença da época, a tuberculose, Cesário perdeu o seu irmão e a sua irmã, tendo mesmo este sentido a doença a partir de 1877 morrendo em 1886.
Na sua vida, Cesário escreveu vários poemas, alguns dos quais foram publicados em revistas e jornais da altura, mas que só em 1887 foram publicados em livro após a sua compilação realizada pelo amigo de universidade Silva Pinto.
Poeta do Campo perdido na cidade, como dizia Fernando Pessoa, Cesário acreditava que o campo era fonte de alegria, amor e vida enquanto a cidade era melancólica, doentia e triste. Na cidade, o poeta procurava em cada recanto algo que lhe lembrasse a vida no campo. Num simples canteiro recheado de cor, Cesário imaginava os campos floridos. A sua inteligência, a sua imaginação e a sua arte de escrever levavam-no a pintar telas com letras e pontos descrevendo o que via enquanto passeava pela cidade (deambulismo). Defensor do trabalho e de quem trabalha e é humilde, nas suas prosas e com um jeito impressionante, Cesário deixa várias críticas sociais para com aqueles que vivem a custa do outro, não trabalham e não são humildes.
Análise poema “ De Tarde”:
No poema que a seguir vou ler, intitulado de “ De Tarde” é visível o gosto do poeta pelo campo e pela natureza.

De Tarde
(Cesário Verde)
Naquele piquenique de burguesas,
Houve uma coisa simplesmente bela,
E que, sem ter história nem grandezas,
Em todo o caso dava uma aguarela.

Foi quando tu, descendo do burrico,
Foste colher, sem imposturas tolas,
A um granzoal*1 azul de grão-de-bico
Um ramalhete*2 rubro de papoulas.

Pouco depois, em cima duns penhascos,
Nós acampámos, inda o Sol se via;
E houve talhadas de melão, damascos,
E pão-de-ló molhado em malvasia*3.

Mas, todo púrpura*4 a sair da renda
Dos teus dois seios como duas rolas,
Era o supremo encanto da merenda
O ramalhete rubro das papoulas!
Esquema rimático:

(Rima cruzada)
a
b
a
(4 quadras cada uma com 4 versos)

Demonstrativo "Naquele" e a forma verbal no Pretérito Perfeito "Houve" remetem para o passado, instaurando a memória como meio de representação poética.
Aliteração: " A um granzoal azul de grão-de-bico", "Um ramalhete rubro de papoulas", "E houve talhadas de melão, de damascos, / E pão-de-ló molhado em malvasia"

Indicadores de tempo: “inda o Sol se via”
Indicadores de espaço: “A um granzoal azul de grão-de-bico”, “Pouco depois, em cima duns penhascos,”

*1   Campo de cultivo de grão-de-bico
*2  s.m. Pequeno molho de flores
*3   Vinho branco e generoso feito de uva muito doce e odorífera, originária da Grécia
*4   encarnado

Neste poema verifica-se a capacidade descritiva de Cesário Verde e o seu gosto pela natureza. É possível verificar-se ainda uma característica muito especial do poeta, o gosto pela simplicidade. O facto de a burguesa ter descido do burrico descontraída e sem imposturas tolas e ter ido colher papoulas deu a Cesário um significado belo. Para o poeta o real valor das coisas estava na simplicidade.
A descrição do local onde a burguesa fora colher as pápulas “um granzoal azul de grão-de-bico” demonstra a capacidade descritiva do real observado pelo poeta e, assim quando a sua poesia é lida logo o leitor imagina a sena presenciada pelo poeta.
Verifica-se ainda o gosto de Cesário pela mulher simples que não se dá a luxos e que, tal como ele, gosta da natureza e do campo.
Na segunda estrofe o poeta usa a aliteração em “granzoal azul grão de bico” e em “ramalhete rubro” para valorizar a ideia de campo.
Ao usar o gerúndio (“descendo”) faz transmitir a ideia de movimento da figura feminina naquele momento.
De seguida o sujeito poético faz uma pequena descrição dos elementos que compõem a merenda, através de alguns substantivos e de enumerações (“talhadas de melão, damascos”, “pão de ló molhado em malvasia”) onde frisa o erotismo dos frutos e do resto da comida, através de sensações visuais e gustativas.
Na última quadra, Cesário Verde inicia a frase com uma conjunção coordenativa adversativa que confere a ideia de que o poeta esqueceu o picnic por um instante e se concentra na mulher que lhe provoca vários sentimentos e que é portadora de uma grande sensualidade «Mas, todo púrpura, a sair da renda, dos teus seios como duas rolas», usando aqui a comparação.
O poema termina com uma frase exclamativa que pretende transpor-nos aquilo que o sujeito poético reteve do picnic, ou seja, essencialmente a beleza daquela figura feminina que vai provocando um turbilhão de ideias na cabeça do sujeito poético.
Nesta, os dois seios remetem para a sensualidade da mulher, destaca-se muito a cor vermelha «rubro» que nos remete para a vida sanguínea mas também para o calor dos seios da figura feminina, metonimicamente deslocados para as papoulas.
Em finalização, deste poema retém-se o gosto do poeta pelo campo e a atração que aquela figura feminina lhe provoca.

Aristóteles- Retórica Aristotélica


“Arte de bem falar, de mostrar eloquência diante de um público para ganhar a sua causa. Isto vai da persuasão à vontade de agradar: tudo depende (...) da causa, do que motiva alguém a dirigir-se a outrem. O carácter argumentativo está presente desde o início: justificamos uma tese com argumentos, mas o adversário faz o mesmo: neste caso, a retórica não se distingue em nada da argumentação. (...).” é adefinição actual de retórica. No entanto, a retórica nem sempre teve esta base, foi ao longo dos tempos que foi sendo aperfeiçoada até se chegar à definição actual. Na parte do meu trabalho, vamos retomar aos tempos em que Aristóteles viveu, e qual o seu contributo para esta matéria.

Aristóteles

Um pouco de história…
Aristóteles nasceu em Estagira, no norte da Grécia, em 384 a.C., e morreu na ilha de Euboea em 322 a.C. Aluno de Platão na Academia, fundador de sua própria escola - o Liceu - e tutor de Alexandre, o Grande,  Aristóteles foi a primeira pessoa a dar importância ao estudo sistemático das diversas disciplinas das artes e ciências que surgiam como entidades separadas pela primeira vez no século IV a.C., inclusive no que diz respeito àdefinição dos conceitos básicos e das relações entre cada uma.

A Filosofia
como instituição
e meio social.

A filosofia não é só o nome de uma prática intelectual, é também o nome de uma disciplina escolar, académica, que se registra em textos que vão sendo acumulados, formando uma vasta bibliografia, que por sua vez vai necessitando de uma tradição de interpretação. Isto faz com que a filosofia também se torne, com o tempo, numa actividade colectiva. As formas socialmente consolidadas dessa actividade influem, então, sobre o próprio conteúdo do pensamento filosófico.
O leigo que vem de fora vai gastar bons anos da sua vida somente para adquirir este conjunto de reacções que fará com que se sinta um membro da comunidade, e ao fazer isto estará crente de aprender filosofia. E o que isto tudo tem a ver com filosofia? Rigorosamente nada, porque embora a filosofia necessite sempre de algum veículo social para existir, a história prova que ela não depende de nenhum deles, que tanto se faz boa e má filosofia numa hierarquia de clérigos como num grupo informal de amigos.
A partir do momento em que se forma um ensino mais ou menos regular de filosofia — o que acontece na Academia Platónica e depois no chamado Liceu de Aristóteles (que na realidade veremos que não existiu efectivamente como entidade autónoma, sendo apenas um novo sector da Academia, dirigido por Aristóteles após a morte de Platão) —-, a filosofia começa a constituir um meio social, e surgem as invejas, a competição mesquinha, etc. Estes aspectos são geralmente desdenhados, mas eles dão-nos o tom do pensamento do nosso tempo, onde a organização académica da actividade filosófica chegou a um máximo de abrangência, eficácia e poder. A competição no meio profissional não é propícia ao desenvolvimento da filosofia, pois o decisivo nela não são as qualidades que fazem um filósofo, e sim as que fazem um hábil manejador social.

A Retórica
de Aristóteles no
ambiente mental grego.

A influência do meio social imediato no destino das filosofias é importante para compreendermos o lugar de Aristóteles no ambiente grego.
Quando Aristóteles entrou para a Academia Platónica, com dezoito anos de idade, destacou-se logo como um dos melhores alunos e foi incumbido de dar uma parte das aulas, o curso de Retórica. Este sucesso inicial foi recebido como um insulto pessoal por muitos dos seus colegas. Mais ainda; sendo a Retórica — curso que ele dava — a ciência teorética que investiga a arte da persuasão, ele logo dominou esta ciência, muito disseminada na época, e foi um dos primeiros a fazer dela uma especulação teórica. Porque a Retórica até então era apenas transmitida como técnica, como prática, e alguns levavam a vida inteira para dominar esta arte, que era a chave das ambições políticas. Aristóteles domina-a prontamente e começa a especular teoricamente. Isto consiste em perguntar: "Porque é que o argumento persuasivo é persuasivo?" e mesmo: "Porque é que um argumentologicamente fraco ou absurdo convence as pessoas, e outro que é razoável não as convence?".
Aristóteles começa sua carreira examinando a Retórica, exactamente como Sócrates havia feito. Sócrates via que os oradores, políticos, conseguiam persuadir as pessoas às vezes de coisas perfeitamente absurdas. Sócrates limitou-se a demonstrar que essas ideias eram absurdas, por mais persuasivas que parecessem. Aristóteles já dá, na juventude, um adianto na matéria. Começa a investigar as causas dessa persuasividade, e formula a ciência da Retórica como uma verdadeira Psicologia da Comunicação. O livro de Retóricade Aristóteles é um dos grandes livros de Psicologia que a humanidade conheceu. Ora, conhecendo por um lado a técnica, e já tendo, por outro, algumas ideias científicas sobre o fenómeno da persuasividade, Aristóteles não sabia apenas produzir argumentospersuasivos, mas também conhecia os princípios teóricos em que se baseava a persuasividade dos adversários. Isto significa que, com vinte e poucos anos, ele tinha-se tornado uma espécie de terror dos retóricos, que desmontava todos os argumentos deles com a maior facilidade. Aristóteles sintetizou, muito jovem, os dois papéis que mais tarde seriam denominados retor e retórico : o praticante da arte, o homem que escreve ou fala bem e o cientista que estuda e formula a teoria da Retórica.

A Retórica de Aristóteles…

Com tudo o que foi enunciado anteriormente, podemos constatar que com Aristóteles, a Retórica torna-se uma disciplina entre as outras.
Aristóteles foi o primeiro filósofo a expor uma teoria da argumentação, nos Tópicos e na Retórica, procurando um meio caminho entre Platão e o Sofistas, encarando a Retórica como uma arte que visava descobrir os meios de persuasão possíveis para os váriosargumentos. Assim, esta pode ser deliberativa, se o auditório tiver que julgar uma açãofutura; judicial, se o auditório tiver que julgar uma ação passada; e, epidítica se o auditório não tiver que julgar acções passadas nem futuras.
O seu objectivo é o de obter uma comunicação mais eficaz para o Saber que é pressuposto como adquirido. A retórica, torna-se numa arte de falar de modo a persuadir e a convencer diversos auditórios de que uma dada opinião é preferível à sua rival. É neste contexto que surge o contexto de recepção: conjunto de opiniões, valores e juízos que um auditório partilha e que serão fundamentais na recepção do argumento, determinando a sua aceitação, a sua rejeição ou o seu grau de adesão.
Sendo baseada em critérios dialécticos, esta retórica torna-se a técnica de argumentação do verosímil, uma vez que as teses colocam-se como discutível no seio dos debates públicos. Qualquer um, pode apresentar contra-argumentos à tese do orador, que é forçado a apresentar novos argumentos a fim de a manter credível.
Outra característica da retórica de Aristóteles e também muito importante, é a de que aqui, se pode distinguir três domínios: retórica, moral e verdade. É que o bom ou mau uso da retórica, ou seja, o uso da arte do bem falar para defender argumentos verdadeiros ou falsos, depende única e exclusivamente da ética de quem assim procede, isto é, da prioridade de valores morais que cada um vai estabelecendo ao longo da sua vida. Quer dizer que a retórica em si, não é boa nem má, o seu uso é que a torna boa ou má. Portanto, é uma ilusão pensar que a má retórica não tem sentido; se o homem é livre de se exprimir, são as suas intenções que determinarão o tipo de uso que fará da palavra.
Em suma, e tal como afirma Aristóteles: “A retórica não é meramente uma arte de persuasão, mas antes uma faculdade de descobrir especulativamente o que, caso a caso, pode servir para persuadir”.
É neste quadro definido por Aristóteles que a Retórica irá evoluir, confinando-se à uma arte de compor discursos que primavam pela sua organização e beleza (estética), desvalorizando-se a dimensão argumentativa cultivada pelos sofistas.

Sistematizando:

A retórica pode ser bem ou mal usada, não é ela que é moral, mas sim quem a utiliza.
Pode-se distinguir três domínios: retórica, moral e verdade.
A retórica é a técnica da argumentação do verosímil.
A retórica de Aristóteles apresenta-se como retórica de raciocínio, por oposição a uma retórica das paixões.


Retórica e dialéctica

A retórica dos sofistas é fortemente criticada por Sócrates e Platão e, por isso, é pretendida relativamente à dialéctica. Para estes filósofos, a dialéctica é sinónimo de filosofia, o método mais eficaz de aproximação entre as ideias particulares e as ideias universais ou puras; é a técnica de perguntar, responder e refutar. Eles consideram que é apenas através do diálogo, que o filósofo deve procurar atingir o verdadeiro conhecimento, partindo do mundo sensível e chegando ao mundo das ideias. Pela decomposição e investigação racional de um conceito, chega-se a uma síntese, que também deve ser examinada, num processo infinito que busca a verdade.
Para Aristóteles, a retórica e a dialéctica são duas disciplinas limítrofes. Ambas partem do verosímil e nenhuma depende da ciência (objectividade da demonstração). Segundo o filósofo:
"A retórica é a outra face da dialéctica; pois ambas se ocupam de questões mais ou menos ligadas ao conhecimento comum e não correspondem a nenhuma ciência em particular. De facto, todas as pessoas de alguma maneira participam de uma e de outra, pois todas elas tentam em certa medida questionar e sustentar umargumento, defender-se ou acusar".
No entanto, distinguem-se no modo como se empregam. A retórica preocupa-se com a persuasão, enquanto que a dialéctica se preocupa com o produzir conhecimentos gerais.
Aristóteles define a dialéctica como a lógica do provável, do processo racional que não pode ser demonstrado. "Provável é o que parece aceitável a todos, ou à maioria, ou aos mais conhecidos e ilustres", diz o filósofo.


Curiosidades

A Retórica de Aristóteles:

Retórica é um texto de Aristóteles. É composto por três livros (I: 1354a - 1377b, II: 1377b - 1403a, III: 1403a - 1420a) e não existem dúvidas acerca da autenticidade da obra.

Objectivos da obra:
O objectivo de Aristóteles com sua Retórica é dar um tratamento eminentemente filosófico ao tema em oposição ao tratamento descuidado que os retores e sofistas daquele tempo davam ao tema. De modo mais específico, muitos acreditam que a reflexão aristotélica sobre o tema foi uma resposta à concepção retórica de Isócrates de Atenas. Ao contrário dePlatão, que no diálogo Górgias condena a retórica e no diálogo Fedro subordina a retórica à filosofia, a investigação aristotélica acerca da retórica — mesmo que eminentemente filosófica — procura conferir autonomia para a técnica retórica, desvinculando-a da vigilância da filosofia (coisa que Platão discordava por considerar a retórica eticamente perigosa).

Resumo da obra:
No livro I, Aristóteles analisa e fundamenta os três géneros retóricos: o deliberativo (que procura persuadir ou dissuadir), o judiciário (que acusa ou defende) e o epidítico (que elogia ou censura). Além disso, argumentos em favor da utilidade da retórica são apresentados bem como uma análise da natureza da prova retórica que é o entimema, umsilogismo derivado;
No livro II, o plano emocional é analisado em sua relação com a recepção do discursoretórico. Uma série de elementos, como a ira, amizade, confiança, vergonha e seus contrários são analisados, bem como o carácter dos homens (p.ex. o carácter dos jovens, o carácter dos ricos). Neste livro, também volta-se a analisar as formas de argumentação, são apresentados uma série de tópicos argumentativos, o uso de máximas na argumentação e o uso dos entimemas;
No livro III, o estilo e a composição do discurso retórico são analisados. Além de elementos como clareza, correcção gramatical e ritmo, o uso da metáfora e as partes que compõem um discurso também estão presentes neste livro.
Com esta obra, Aristóteles lança as bases da retórica ocidental. Teoricamente, a evolução da retórica ao longo dos séculos representou muito mais um aperfeiçoamento da reflexão aristotélica sobre o tema do que construções verdadeiramente originais.